sábado, 14 de Março de 2009

REFLEXO


Sei-me de cor
Desde tempos imemoriais que me aprendi
Conheço o meu abrir de alma à luz do sol
Conheço o meu regresso à escuridão
Por isso me escuto e me confronto.
Sei-me de cor
E de tão bem me saber é que descubro
Que neste estar em que me encontro
Sou duas de mim como no espelho
Eu sou a imagem do meu reflexo.

terça-feira, 10 de Março de 2009

DEDOS BRANCOS


Das mãos estendidas recolhi-te os dedos frios.
Entre as minhas mãos os tomei. No sopro dos meus lábios os aqueci.
Tocando-me o rosto floresceram em mil botões de rosas brancas.
Como as asas que os trouxeram, a iluminar a minha noite escura.

quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009

GUARDIÃ


"Um passo. Um curto passo. E basta abrir as asas.
Guardiã do dia. Senhora da noite. Não pares de sonhar.
É no teu sonho que acordo, me elevo, cresço e me perco.
De mim arranco e pele real da mágoa e da pena.
Contigo me cubro do brilho perfeito da água e do vento."
"Sim, respondeu a Senhora, sim.
Abro contigo as minhas asas e voaremos juntas.
Na noite sem lua, a caminho das estrelas.
Voltaremos ao primeiro raio da manhã.
Ao amanhã em que seremos fogo da mesma chama."

quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2009

NAS ASAS DO SONHO


Sonho
Com as asas que o sonho me deu.

quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009

A GRUTA DO LAGO


Segue-me.
Vou levar-te ao fundo de mim. Ao lugar onde me encontro comigo.Às janelas onde o passado se mostra. Às águas onde me renovo. À luz que dá energia.
Subamos aquele carreiro entre árvores. Olha-as de perto. As folhas são pequenos cristais. Escuta com atenção, há uma melodia cristalina que só ouvirás se começares a abrir o coração ao mistério.
Repara que nos aproximamos da entrada de uma gruta, não temas, entra.
Dou-te a mão. Olha as rochas, vês os brilhos? aproxima-te...sim, iluminam o caminho...são como estrelas no céu.
Vamos descer agora, devagar. Demora o olhar a tua volta, as formas, a luz, os reflexos... até as sombras te servirão de memoria...
Porque páras? É lindo eu sei! Sinto sempre o mesmo, quando o caminho se alarga e esta maravilhosa nave se abre, aos olhos subitamente encadeados, pela claridade das colunas, que sobem até se perderem de vista, no tecto de cristal.
Aquela entrada na rocha, do outro lado, junto à parede das janelas, é por onde vamos.
Não, não olhes para lá das janelas! Podes ver-te, e não sei se estás preparada. Um dia quem sabe, viremos para procurares respostas, hoje não!
Temos de passar com cuidado, esta passagem é estreita.
Pára agora, habitua os teus olhos à escuridão. Fixa-te na agua, vê como a cor luminosa se vai cambiando de azuis...
Queres?
Despe-te. O corpo e o coração, nus.
Entremos na agua...eu sei, está fria...mas repara como a sensação de frescura te invade sem te arrefecer, sente a leveza, deixa-te agora flutuar. Imagina que a água que te rodeia, lava o teu corpo, a tua mente, o teu coração e arrasta tudo o que tu não queres sentir.
Vejo que sorris. Ah, vejo que começas a brilhar. Sentes a energia entrando em ti?
Olha à volta para as margens...quantos olhos amorosos nos olham...quantas asas frementes nos dão as boas vindas, quantas mãos nos abençoam!
Sim, já entendeste!
Agora sabes o caminho, mas virei contigo, sempre que quiseres!
Um dia, também tu virás sózinha.
Até lá não olhes nunca pelas janelas do passado!

sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2009

SONHO



Veio o sol depois da chuva. A natureza brilha lavada. Lá no alto, por entre as copas o céu é muito azul, safira facetada a reflectir a luz intermitente.

Sinto os teus olhos em mim...estendo a mão e toco a tua mão... a pele macia e seca...os dedos longos e finos...a pressão leve com que dizes: sim estou aqui.

Sei que queres ir, aperto os teus dedos e segues-me, mão na mão, como duas crianças, confiantes e decididas. Hesitas um pouco, insisto.

A pouco e pouco as árvores vão tornando-se maiores, os fetos já nos cobrem os ombros, as violetas, junto ao chão chegam-nos ao joelho.

Olho-te pela primeira vez...sorris, olhando à volta, encantada. Com um gesto recomendo-te o silêncio.

Está mais escuro aqui em baixo, sentamo-nos sobre uma pedra, ainda mão na mão e esperamos.

Devagar pequenas sombras começam a mover-se e a rodear-nos, murmúrios que não entendes ouvem-se à nossa volta, som de asas, brilho de olhos...continuas a sorrir...

Assim ficamos, mão na mão, rodeadas de seres que nunca viste, mas imaginaste sempre que existiam. Contam histórias para tu ouvires, cantam canções em línguas de outras eras, afagam-te os cabelos e a pele tão branca, sorriem para ti, dançam pequenos bailados aéreos e as suas gargalhadas cristalinas soam felizes.

O teu olhar encantado vira-se para mim...vais falar...coloco um dedo sobre os teus lábios...recebo um beijo...entendeste...vieste para ver o meu reino.

Sinto calor no rosto e luz, abro os olhos, é um raio de sol. Olho para o lado, continuas a dormir, a tua mão na minha, e sorris...quando acordares vais contar-me o teu sonho e nem sonharás que foi verdade!

sábado, 31 de Janeiro de 2009

INSTRUMENTO CÓSMICO


Estendi a mão.

A luz brilhou num raio quente e delicado, tocando a palma, como se desenhasse palavras.

Penetrando na pele, foi invadindo a carne, correndo no sangue.

Senti-a chegar ao coração. Expandir-se.

Diluida e fluida deixei que me tomasse.

Então era eu que brilhava, que irradiava, que iluminava as sombras.

O Poder e a Força, projectando-se em ondas de serenidade e cura.

Ajoelhei. A luz partiu. Fiquei só.

Mais um ritual se cumprira.

E de mim restava apenas um coração latejante

sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009


A Gina passou para mim o encanto que caiu no blog dela.
Ao aceitar devo passá-lo a 5 visitantes deste meu castelo de núvens.
Para cumprir este encantamento tenho de:
Ir ao livro de magias mais à mão, sem procurar aquele de que mais gosto
Escolher a página 161
Procurar a 5ª frase completa
Escrevê-la neste velho pergaminho.

"Sempre que meu pai evocava Omar afagando os cabelos perfumados da sua adorada, a minha mãe enrubescia" - Samarcanda de Amin Maalouf

Porque este é um poderoso feitiço, para alcançar a sabedoria e a luz, deixo-o disponível para quem procura estas duas bençãos.

Que quem vem, leve e cumpra, para que se cumpram os desígnios de uma encantada!

quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009


Suspensa no ar se eternizou a essencia da gota que caiu.

Assim ficam pairando as palavras, depois de ditas, nas memorias de quem as ouve.

Cuidado pois, que as palavras sao punhais, quando as dizemos sem pensar.

segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009

ENTRE O CEU E A TERRA


Nascem-me asas de borboleta, que as fadas escolhem as asas com que voam!
Dos verdes e azuis alagados apetece-me fugir.
Escolho a noite misteriosa, procuro as estrelas mais distantes.
As vermelhas, as que morrendo, vão criar novos brilhos no céu.
Escolho um rumo, bato as asas num impulso e parto.
Por mim passam, num afago, sombras que não conheço.
Roçam as minhas asas, toques leves, como palavras murmuradas.
Não paro, não quero ouvir, quero estar só.
Somente eu e as cores rodopiantes do Universo.
Em espiral, num crescendo fulgurante, abre-se um caminho.
Degraus de fumo, desfazendo-se à medida que subo, em voo lento.
Há uma brisa melódica que me chama, um acenar de mãos imprecisas.
Não olho para trás, sei que lá longe, o meu corpo jaz na terra iluminada.
Em frente, um outro mundo, um arco-íris de olhos brilhantes.
Sinto o convite, como quem ouve chamar por si.
É aí que paro, não quero ir além do conhecido, não agora, não ainda.
Serenamente pairo, até sentir-me impregnada pelo mistério.
Então regresso, sem pressa, trazendo comigo a cor, a luz e o brilho.
Que aqui onde me encontro é que quero estar.
Aqui onde estou é que sou cor, sou luz e sou brilho.

sábado, 24 de Janeiro de 2009



Procurei-te na saudade que senti

Serenamente abri o cofre de ébano onde guardei as mágoas que deixaste

Lá dentro repousava uma flor de seda e cristal

E da luz que emanava tirei o sono que hoje dormirei

Sem sonhos

Sem desejos

Amachucando na mão crispada

Uma pétala que me roubei!

quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

SONHA COMIGO

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Caminho, divagando entre sombras e luzes difusas.

Sei que a qualquer momento se definirá, aos meus pés, o trilho que procuro.

Nem um som se faz ouvir.Nem a urgência se faz sentir.

Encontro as águas escuras e rasas, que a chuva deixou na taça das rochas.

Nos côncavos de pedra busco as velas sagradas.

Dos olhos, que o negrume aprisionou, cai-me o olhar.

Da boca, vermelha de sangue que mordi, rasga-se o sopro.

Das mãos, o calor solta-se em chama.

Uma a uma, as velas acendem-se, e uma a uma as coloco na taça negra.

Sinto que à minha volta as luzes se multiplicam, enchem o ar, rompem o silêncio.

Solto o grito.

O teu nome ressoa de pedra em pedra, de árvore em árvore, numa onda de som.

Fecho os olhos, pressinto-te o estremecer, sei que cheguei lá.

As velas ardem até romper a madrugada e eu ardo com elas.

Quando o sol se adivinha, mergulho as mãos na água gelada e lavo o rosto.

Guardo as luzes, cubro-me e parto.

De manhã vais acordar sem saber porque sonhaste comigo, toda a noite!


segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

IMPONDERÁVEL



Quando a noite cai suavemente, no esmorecer lento da luz, é que eu me encontro.
É que eu me perco de mim e me transformo.
Da translucida carne se evola a alma, no corpo transparente só bate o coração e as asas diáfanas desenrolam-se lânguidas como ondas, na praia deserta.
E durmo. E vejo-me jazente. E parto.
Então vagueio pela cidade atrás de ti. Procuro-te, seguindo o teu rasto, feito do odor que ninguém sente.
Sempre te encontro!
Pairo sobre ti.
Sim
Esse arrepio que sentes, sou eu.
Esse afago que te faz sorrir de repente, sou eu.
Essa saudade que te nasce nem sabes de onde, sou eu.
E vejo como abres as mãos...como olhas à volta...como deixas de escutar as conversas...como te calas...como de repente te apetece fugir...
Abro as asas... e rodeio o teu corpo...
Vejo que sobre ti desce uma paz que não entendes...
Devagar cubro-te mansamente...separo-te ...afasto-te... isolo-te...
Coloco na tua mente a imagem de bem estar que tu recordas, faço-te ouvir o mar, deixo-te na pele o afago dos óleos relaxantes...divagas...e eu estou lá.
Tu não sabes, mas todas as noites te sigo!
Tu não sabes, mas todas as noites te roubo!
Tu não sabes, mas todas as noites te tenho!

sexta-feira, 2 de Janeiro de 2009

FEITIÇO


Ergui as mãos, e gritei teu nome.
Arabescos entrelaçaram os meus cabelos.
Simbolos esquecidos bailaram-me nos olhos.
Na neblina que se acendeu vi o teu rosto.
Conheci-te o corpo, notei-te o sorriso, percebi-te a vinda.
Agora sei que feitiço te prende.
Basta-me erguer as mãos.
E gritar o teu nome.

sábado, 27 de Dezembro de 2008



Das águas tranquilas e correntes. Emergindo do lodo para o sol.

Nas mãos mentirosas. Os rabiscos roubados.

Nas palavras intermitentes. Os regressos anunciados.

E as minhas mãos limpas a falar verdade.

domingo, 14 de Dezembro de 2008

NOITE DE LUA CHEIA



Quando só a Lua ilumina o caminho, rumamos ao alto do monte, através da floresta de árvores vivas, que murmuram à nossa passagem, num canto baixo e lento, o primeiro encantamento.
As vestes escuras confundem-se com as sombras e quando a Lua rompe a folhagem, brilham apenas rostos e mãos, muito brancos, e as flores que apertamos ao peito têm o vermelho do sangue coalhado.
Um circulo de pedras nos aguarda, como a nave de uma imensa catedral em ruínas. No meio uma fogueira com aromas de sândalo e canela.
Inesperadamente e a uma só voz começam os cânticos, monocórdicos, roucos, encantatórios, enquanto uma dança milenar, que não sabemos como, nos toma o corpo e nos leva de rodopio em rodopio, até ao extase.
As vozes afinam-se, e os pés mal tocam no chão. Caem os mantos, espalham-se as flores e a Lua ilumina os corpos nus. Braços ao alto, mãos erguidas, rostos dando-se à luz, olhos afogados em visões de outras eras, bocas entreabertas gritando palavras que só o nosso coração conhece.
Depois, a musica soprada pela brisa espalha-se de manso, os cantos vão cessando lentamente, as mãos procuram-se, os corpos encontram-se, as bocas unem-se e, sobre o chão sagrado, atapetado de pétalas desfeitas, o murmúrio das carícias enche o tempo.
A Lua fica mais alta, mais distante.
Pouco a pouco, os corpos saciados, erguem-se brilhantes, recobre-se a nudez languidamente.
A madrugada vai espalhando a claridade cinzenta, voltam a soar os cantos, de mãos dadas na penumbra e através do brilho prateado da floresta, refaz-se o trilho de regresso.
Em noites de Lua cheia... nós as mulheres mágicas, Senhoras do sonho e do prazer, sabemos encontrar o rasto do Amor, que nunca morre, porque se renova em cada uma de nós, peregrinas do Caminho.

quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008

POR TI


Que me despiste a graça de todas as cores da Primavera
Despojaste o meu corpo das cores quentes do Verão
E me cobriste com a tristeza cinzenta do Outono
Visto hoje um longo manto de neve imaculada
Cristais de gelo me enfeitam os cabelos
Ao peito aperto os dedos brancos e frios.
E vagueio assim pela imensidão azul do nada
Como uma rainha sem trono e sem reino.
E o que sei das tuas mãos quentes e doces
Arde-me nos olhos a derreter o choro!

sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

BLUE ICE


Queria a musica que ouviamos juntas, queria poder ouvi-la, senti-la de novo, mas não posso.
A musica é uma chicotada na verdade que eu gostava que tivesse sido.
Cada som da melodia é golpe de navalha, e o ritmo bate-me nas veias até à dor.
Por isso o silêncio me rodeia e só o silêncio me acalma e me dá à alma o gelo de não lembrar.
Onde estás tu? Por onde andas? Adivinho que estás triste e sei que não és feliz!
Sei, desse saber feito de te conhecer, dessa certeza do teu caminho dificil, da tua escolha obcecada, do teu querer não querer.
E fico triste também e também sou infeliz.
Vi-te chorar e não chorei. Todas as minhas lagrimas se esgotaram nas tuas mentiras, mas as tuas doem-me mais ainda por sabê-las verdadeiras, por não poder bebê-las e matar a sede que tenho de ti.
Nesta hora, na pausa da raiva, estendo as minhas asas que esfarrapaste, e tento chegar a ti com o calor de um adejo que te diga: apesar de tudo não estás sozinha, apesar de tudo, mesmo que não saibas, eu continuo aqui, onde sempre estive à tua espera.

sábado, 22 de Novembro de 2008

A MEU LADO


Sei que estás a meu lado...
O calor do teu corpo rompe a frigidez do ar que me rodeia
A tua voz chega-me nas palavras veladas do desconsolo
O meu olhar encontra-te nas sombras que recortam o teu corpo.
Sei que estás a meu lado
Estendo as mãos ansiosas e nada encontro em que tocar
Abro o coração e nenhum gesto resta a embalar o meu sonho
Atentamente escuto e a tempestade é o eco de ti.
Sei que estás ao meu lado... E sei que te perdi.

quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

PARA TI


Com as palavras a construi e com as mãos a fui tecendo. Com fios de seda das cores do arco íris a fiz bela. Não era um laço, não a criei pra te prender. Era um colar de Deusa que te dava julgando dar-te um tesouro feito de mim. Com a soberba de uma mariposa a usaste. Com o desprezo de uma fénix a queimaste. Ficou-me tatuada dentro da carne, a sangue e fogo. E por não se ver ninguém a sabe e tu já a esqueceste.

segunda-feira, 10 de Novembro de 2008


Não é o meu olhar encantado que arde na chama viva
Não são os meus olhos imortais que a cinza fará chorar!

Serão as tuas lágrimas de orgulho que apagarão o fogo
Serão os teus olhos cegos que o mundo verá vazios!

Nessa hora, as minhas asas cansadas estarão prontas
A voar sobre os teus restos amortalhados em nostalgia!

sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

RESTEA


Há uma réstea de céu azul por entre as nuvens negras que me atormentam, uma nesga de esperança abençoada, um quase nada de certeza nesta angústia!
Não, não é beleza, não é regresso, não é consolo!
É oração escondida no fundo do coração. É mão erguida ao céu em agonia.
Um dia o céu vai amanhecer azul e luminoso, as nuvens vão ser brancas e leves, a luz vai invadir o meu quarto, o sol vai beijar sem medo o meu corpo...
Então eu saberei que o teu sonho passou ao meu lado e não ficou.
Poderei abrir as mãos cerradas e receber o toque das quimeras, descerrar os olhos e ver todas as faces, que hoje têm sempre o teu perfil, molhar nos lábios um sorriso terno e doce e dizer a quem passa que estive morta...e não morri!
Até lá...cada dia é a violência de viver que me consome!

domingo, 2 de Novembro de 2008

UM RUMO



Sei das canções que o vento canta no longe das manhãs que conheci
Das noites poderosas relembro o sussurro breve dos teus lábios
No meu corpo grita-se hoje um lusco-fusco de prazeres adiados
Mas este rio já não tem margens nem a minha alma tem fronteiras.

Na barca cega destes dias embrulho-me no xaile do tempo e parto
Já não procuro saber para onde vou e sigo inerte o rumo da corrente
Há no horizonte tanto dia por nascer e o sol recusa-se a surgir
E nesta eterna madrugada já a minha voz se cansou de chamar por ti.

sexta-feira, 31 de Outubro de 2008

ESPERO


Teço com os dedos gelados um manto de seda para te cobrir
Das cores que o meu coração veste por ti.
Sei de cor os pontos com que a agulha borda o teu nome
E deixo-te uma gota de sangue em cada um.
Será um dia a mortalha do que sinto e arde e dói em mim
Como os olhos cegos de te procurar no horizonte.

sexta-feira, 24 de Outubro de 2008

ESTOU AQUI


Sei que estás em mim porque todo o meu corpo está tatuado dos teus gestos
Sei que estás em mim porque uma rosa de sangue continua na minha mão
Sei que estás em mim porque dos meus olhos ainda escorrem lágrimas negras!

Quem dera te esquecesse e não passasses de uma memória suportável
Quem dera este desejo de te ter nas minhas mãos fosse apenas medo do vazio
Quem dera as lágrimas que choro não passassem de reflexo de estar só!

Mas sei que é por ti que choro, e que é por ti que espero desesperada
Mas sei que que mil vidas que viver te lembrarei, mesmo que sejas mentira
Mas sei que nesta hora não há vinho , não há sono, que te afaste de mim!

Não digas mais nada, cala, esquece, foge, deixa que te perca de vez
Não faças da ausência que quiseste uma razão que desconheces
Não teimes em me prender em laços escusos...não estares aqui é o bastante!


domingo, 19 de Outubro de 2008

RESTOS


Deixaste uns restos...coisas poucas...lembranças descarnadas... ideias soltas
Com ela fiz um fogo que quero lento...
Quero-o bem lento sob o caldeirão das esperanças...
Enchi-o dos meus restos que não levaste... um olhar louco... mãos vazias... coisas mortas
Despi as minhas vestes de princesa, que as tuas mãos teceram para mim
Vesti-me de fumaça e solidão... de sombras que deixaste pelos cantos...
Descalça olho sem ver ... o futuro... o desígnio ... o saber
Que me amortalhaste em vida com o engano de te teres enganado.

sábado, 18 de Outubro de 2008

LOBA



Em noites de lua cheira quando os uivos ecoam na floresta prateada...sou eu...loba de mim.
Sou eu que me devoro lentamente em lembranças de outras eras...
E eu que me lamento de mim...
E me digo em altos uivos o que o sol me impede de dizer durante o dia...
Por ti ergo o grito que me revela e amedronta
Por ti me arrasto de colina em colina
E a lua por testemunha chora comigo até ser manhã...

terça-feira, 14 de Outubro de 2008

DESERTO


Secaram os rios dentro de mim, a fonte das lágrimas secou também.
Neste deserto de estar viva, é miragem a frescura de estar bem.
Ao colo te levei pelos caminhos dolorosos, e nos lábios os meus beijos
Eram as gotas de água que que não tinha para te dar.
As minhas velhas mãos eram a sombra que os teus olhos ansiavam
E nos meus braços enterravas as mágoas que ninguém queria.
Hoje... Os teus rios correm cheios do mel que te oferecem
E de braços abertos acolhes o oásis onde te levam a beber
Da água cristalina que eu não soube encontrar!

domingo, 12 de Outubro de 2008

MISTICAS




Rosas misticas me sobraram das tuas mãos de cera.

Rosas brancas que guardei e o tempo amareleceu.


Quando voltares, uma rosa branca entre os teus dedos.

Dirá que não esqueceste o jardim que já foi nosso.




segunda-feira, 6 de Outubro de 2008

O PARQUE DAS FADAS


Nestas raízes centenárias
Sei o que escondi sem tu saberes
Sei do teu sorriso atormentado
Sei do meu olhar que eu quis cego
Nessas raízes centenárias
Enterrei a minha alma aflita
Enterrei o meu choro de medo
Enterrei o teu medo de chorar
Nestas raízes centenárias
Espero esquecer o que tu foste
Espero a lembrança de ter sido
Espero o resgate da tristeza